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Dias 7, 8 & 9: "Rafiki", Melissa McCarthy e Harmony Korine encerram o festival

Nos últimos três dias do Queer Lisboa 23, um dos grandes destaques é a Sessão Especial em que exibimos o filme de culto Mister Lonely, de Harmony Korine. O filme, história de um imitador de Michael Jackson (Diego Luna) que faz espetáculos de rua, em Paris, para sobreviver, se apaixona por uma bela sósia de Marilyn Monroe (Samantha Morton), que lhe sugere mudarem-se para uma comunidade de imitadores nas Highlands escocesas, é uma obra ímpar na carreira do realizador que, de certa forma, opera uma mudança, não só estética mas também de meios de produção, no seu cinema. Esta Sessão Especial, que terá lugar na Cinemateca Portuguesa, no sábado dia 28, às 19:00, tem como mote a exposição Sem Receio de Criar o Caos, que continua patente na Galeria Foco até ao último dia do festival.

Nas habituais secções do Queer Lisboa, prossegue o Panorama, onde a dominam dois grandes filmes que, de formas diversas, marcaram o ano de 2019. Do Quénia chega Rafiki, de Wanuri Kahiu o aguardado filme-sensação estreado no Festival de Cinema de Cannes em 2018, e logo proibido no seu país de origem. Uma ficção lésbica, onde Kena e Ziki enfrentam as convenções que esperam que as “boas raparigas” se tornem “boas esposas”, tem sido um acontecimento nos muitos festivais por onde tem passado e será exibido, entre nós, na quinta-feira dia 26, às 19:30, na Sala Manoel de Oliveira do Cinema São Jorge. Na mesma sala, mas às 17:15 de sábado, poderemos ver Can You Ever Forgive Me? (na imagem), de Marielle Heller, o filme onde Melissa McCarthy se transforma na biógrafa Lee Israel, e que deu à atriz, não só a nomeação aos Oscars, mas também algumas das melhores críticas da sua carreira. Mais uma história de fraude literária, depois da termos visto JT LeRoy no festival na terça-feira, onde a atriz, acompanhada pelo fantástico Richard E. Grant, abandona a persona cómica que tem vinda a construir ao longo da sua carreira.  

Tempo ainda para as últimas sessões das secções competitivas do festival. No Queer Art recebemos em Lisboa Armand Rovira, o realizador de Letters to Paul Morrissey (Sala 3 do Cinema São Jorge, quinta-feira, 21:30), filme que por entre existencialismo austero, vampiros em coreografia infinita e lembranças ilusórias de Chelsea Girls, encena tanto uma homenagem ao realizador da Factory como um olhar distanciado sobre outros tempos e outros cinemas. Enquanto na Competição para a Melhor Longa-Metragem os destaques vão para Las Hijas del Fuego, de Albertina Carri, e Port Authority, de Danielle Lessovitz. Se no primeiro somos levados pelas paisagens deslumbrantes do sul da Argentina, numa viagem de poliamor onde duas amantes se cruzam com muitas outras mulheres, no filme de Lessovitz regressamos à cidade e as suas dínâmicas implacáveis, numa Nova Iorque fugaz e estratificada, onde tanto somos atraídos pela universo do kiki e ballroom, como somos confrontados com a gentrificação e comodificação generalizada. Ambos os filmes têm exibição na sexta-feira, dia 27, na Sala Manoel de Oliveira, no Cinema São Jorge, sendo o de Carri às 19:30 e Port Authority às 22:00.

Também presente em Lisboa estará Marilina Giménez, que vem apresentar o seu filme Una Banda de Chicas, uma obra que coloca urgentíssimas questões sobre o papel das mulheres na cena musical atual, perguntando-se o que acontece quando as mulheres fazem a música que escolhem ou quando os seus corpos no palco são sensuais e agressivos. O filme, com exibição no sábado às 17:00, na Sala 3 do Cinema São Jorge, está integrado na Competição para o Melhor Documentário. Também nesta competição, exibimos na quinta-feira, às 17:00 na mesma sala, Ni d'Ève ni d'Adam. Une Histoire Intersexe, de Floriane Devigne, um filme essencial que reflete sobre a forma como as pessoas intersexo procuram reapropriar os seus corpos e construir as suas identidades, enquanto questiona o que as nossas sociedades estão prontas para fazer em nome das normas sociais. Esta é uma obra de obrigatória, à qual se segue o Debate "Direito a Ser… Intersexo". Com o apoio da Secretária de Estado para a Cidadania e a Igualdade, o debate tem como objetivo promover o conhecimento e a reflexão sobre esta temática.

Continua também a retrospetiva Berlinale Panorama 40 na Cinemateca Portuguesa, que conclui no sexta-feira com o maravilhoso Rebels of the Neon God, de Tsai Ming-liang, a primeira longa-metragem do realizador, e que lançou a sua brilhante carreira internacional. Por outro lado, tem início na quinta-feira às 19:15, na Sala 3 do Cinema São Jorge, a última secção competitiva deste Queer Lisboa 23, a Competição “In My Shorts”, para Melhor Filme de Escolas Europeias. Uma seleção fortíssima, da qual fazem parte filmes de escolas tão diversas como a London Film School, o Piet Zwart Institute, em Roterdão, a HEAD em Genebra, a francesa Le Fresnoy, ou o DocNomads. Contamos nesta secção com a presença do realizador português David Leal, que apresenta o seu filme You Are a Letter, Written Not with Ink, but with the Spirit, na sessão "In My Shorts" de sexta-feira, às 17:00 no Cinema São Jorge. 

No sábado, às 21:00 na Sala Manoel de Oliveira, tem lugar a Noite de Encerramento do Queer Lisboa 23 onde serão anunciados os prémios das diversas categorias da Competição, assim como os Prémios do Público. Como filme de encerramento será exibido Skate Kitchen, de Crystal Moselle, onde a realizadora do premiadíssimo documentário The Wolfpack, desenha uma história imbuída da cena skater feminina de Nova Iorque, em que Camille, uma adolescente introvertida, faz amizade com um grupo de raparigas skaters, chamado Skate Kitchen. A seguir ao filme, tem lugar a Festa de Encerramento no Titanic Sur Mer, onde o aquecimento se faz com Las Galegas, e a sua ode ao electroclash, em desvios pelo eletropop francês e o electro-disgusting espanhol, antes de avançarmos a todo o gás em direção a dois djs que levam a club culture para os seus recantos mais selvagens: o emergente fabaitos, que tanto pode virar para o industrial como para o fast acid, e a sua alma gémea Yizhaq, que promete desde pop desconstruído até kuduro futurista.