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Programação completa do Queer Porto 5

Nesta sua 5ª edição um dos principais destaques do Queer Porto é o programa 50 Anos dos Motins de Stonewall onde, ao comemorar esta importante data, o festival procura tocar nos temas da representatividade, das conquistas, das exclusões e das vozes que se viram silenciadas. Através de uma seleção que inclui clássicos fundamentais como Before Stonewall (1984), de Greta Schiller e Robert Rosenberg, Buddies (1985) e Gay USA (1977), ambos de Arthur J. Bressan Jr, e os contemporâneos The Archivettes (2018), de Megan Rossman e Self-Portrait in 23 Rounds: a Chapter in David Wojnarowicz's Life, 1989-1991 (2018), de Marion Scemama e François Pain (exibido também em setembro no Queer Lisboa), procuramos refletir sobre o que significou meio século dos modernos movimentos de luta LGBTI+, quais as suas conquistas políticas e sociais nos vários cantos do globo. 

Ainda neste contexto, e integrado no mesmo ciclo sobre Stonewall, o Queer Porto tem, este ano, como Filme de Abertura, o documentário The Cockettes (2002), de Bill Weber e David Weissman, um filme que nos transporta da psicadélica São Francisco dos anos 60 à São Francisco gay dos anos 70, e em que os The Cockettes, uma flamejante troupe de hippies, se enfeitavam num drag gender-bender para uma série de lendários espetáculos à meia-noite no Palace Theatre de North Beach. Como Filme de Encerramento, o festival apresenta o argentino El Ángel, de Luis Ortega. Estreado na edição de 2018 do Festival de Cinema de Cannes, o filme apresenta-nos Carlitos, um adolescente com a arrogância de uma estrela de cinema que, ao conhecer Ramon na sua nova escola, imediatamente se sente atraído por ele e começa a chamar a sua atenção, embarcando juntos numa viagem de descobertas, amor e crime. 

Uma vez mais, um total de oito filmes integram a Competição OficialA Dog Barking at the Moon, de Xiang Zi, conta-nos a história de Huang Xiaoyu, uma escritora chinesa radicada nos EUA que, ao voltar à China se vê confrontada com o seu difícil passado familiar; The Gospel of Eureka, de Michael Palmieri e Donal Mosher, traz-nos uma história de amor, fé e direitos civis numa cidade sulista dos EUA; em M, de Yolande Zauberman, somos apresentados a Menahem Lang que, em criança, foi sistematicamente violado por membros da comunidade judia ortodoxa onde cresceu; Madame, de Stéphane Riethauser, é uma viagem íntima onde uma exuberante avó de 90 anos e o seu neto cineasta, exploram o desenvolvimento e a herança da identidade de género no seio de um ambiente patriarcal; em The Man Who Surprised Everyone, de Natasha Merkulova e Aleksey Chupov, Egor, ao descobrir que lhe restam apenas dois meses de vida, tenta desesperadamente enganar a morte tomando a identidade de uma mulher; em Los Miembros de la Familia, de Mateo Bendesky, os irmãos Lucas e Gilda viajam para uma pequena cidade balnear argentina onde Lucas explora a sua sexualidade enquanto Gilda procura algum significado para o mundo à sua volta; Raia 4, de Emiliano Cunha, fala-nos de Amanda, uma atleta de natação de 12 anos, calma e reservada, que procura segurança no seu próprio universo; e Yours in Sisterhood, de Irene Lusztig, onde centenas de mulheres são convidadas a ler em voz alta e responder às cartas dos anos setenta enviadas à editora da Ms., a primeira revista feminista mainstream dos EUA. 

A par da Competição Oficial, o festival terá também a sua habitual Competição “In My Shorts”, constituída por filmes de escola portugueses, onde este ano participam alunos da Escola Superior de Artes e Design das Caldas da Rainha, da Universidade da Beira Interior, da Escola Superior de Teatro e Cinema de Lisboa, do Instituto Politécnico do Porto e da Escola Superior de Tecnologia e Gestão de Portalegre.

O Teatro Rivoli acolhe ainda um programa sobre Vídeo-Ensaios, onde se destacam filmes como Flow/Job, de Darren Elliott-Smith, em que se faz uma análise estética dos filmes da icónica estrela de pornografia gay Joey Stefano em justaposição com a lendária curta experimental de Andy Warhol, Blow Job; ou International Face, de Natalie Tsui, uma meditação sobre raça, diásporas queer e sistemas de classificação de imagens.

Viaja também ao Queer Porto 5, o programa já apresentado no Queer Lisboa 23 Agência 20 Anos: Carta-Branca a Cláudia Varejão. Este é mais uma oportunidade para ver A Torre, de Salomé Lamas; Insert, de Filipa César e Marco Martins; Paisagem, de Renata Sancho; Retrato de Inverno de uma Paisagem Ardida, de Inês Sapeta Dias; e Um Campo de Aviação, de Joana Pimenta.

O Queer Porto 5 apresenta ainda, em Sessão Especial, O Beijo no Asfalto, de Murilo Benício. A estreia na realização do conhecido ator brasileiro é uma releitura da peça homónima de Nelson Rodrigues. À exibição do filme segue-se uma conversa com o performer Tales Frey sobre a importância da obra do dramaturgo Nelson Rodrigues, e sobre a leitura que podemos fazer hoje deste texto dramático de 1961.

Tendo ainda por mote o filme de Benício, Tales Frey irá apresentar a performance O Outro Beijo no Asfalto, que faz parte da sua serie “Beijos”, uma intertextualidade com o clássico rodrigueano em que dois artistas, com trajes convencionalmente trocados, se suspendem num beijo de 30 minutos ininterruptos. A performance terá lugar na Praça D. João I, imediatamente antes da exibição do filme.

Nesta edição, o Queer Porto apresenta também “A Terra é Tela”, de Vier Nev, uma ‘exposição’ de realidade aumentada que subverte o espaço público, convidando-nos a passear nos espaços do festival e da própria cidade activando pedaços de histórias não normativas que se desvendam em esculturas feitas de bits e pixéis, a partir da pedra e azulejos da cidade. 

Num salto aos Maus Hábitos, estamos prontos para o Queer Pop, onde se apresentam este ano duas sessões, a primeira, intitulada Nos 50 Anos de Stonewall, apresenta telediscos dos Bronski Beat, Le Tigre, RuPaul e Troye Sivan, entre outros, culminado inevitavelmente no mais recente trabalho de Madonna; e a segunda dedicada a Britney Spears, traçando o seu percurso desde o Club Disney até femme fatale obcecada com couro. 

Ainda nos Maus Hábitos, o festival despede-se com uma incrível Festa de Encerramento onde performance e música se misturam, celebrando o caráter experimental e único do festival na cidade do Porto. A noite arranca com Susana Chiocca, e a sua performance Bitcho, prossegue com Catxibi, figura importante no panorama da noite portuense e culmina com João Vieira, o famoso DJ Kitten, cujas festas de culto Club Kitten permitiram que o músico, a partir do Porto e desde 2001, reescrevesse a cena clubbing em Portugal.