26 de Setembro
Queer Lisboa 30: Palmarés

A longa-metragem de estreia de Marine Atlan, La Gradiva, foi a grande vencedora da 30.ª edição do Queer Lisboa – Festival Internacional de Cinema Queer, tendo conquistado não só o Prémio de Melhor Longa-Metragem, como também o Prémio do Público.

 

Nas palavras do júri – a gestora cultural Kathleen Gomes, a programadora de cinema Maria João Madeira e o actor Miguel Nunes – o filme é "uma Viagem em Itália contemporânea que segue um grupo de adolescentes num instante decisivo de passagem para a idade adulta. Entre ruínas, movimentos tectónicos e a vibração da natureza, as personagens questionam-se, apaixonam-se e magoam-se, circulando num território tão antigo quanto instável. A arqueologia da História, a formação das identidades e a procura de pertença convergem como movimento vital desta fulgurante primeira obra que toca a fragilidade da natureza humana”.

 

Após a revelação em 2018 com Daniel fait face, Marine Atlan constrói, em La Gradiva, um fresco sobre as intermitências da juventude. É a confirmação da diretora de fotografia de eleição de cineastas franceses como Jonathan Vinel, Caroline Poggi e Alexis Langlois, que aquando da sua estreia mundial venceu o Prémio de Melhor Filme da Semana da Crítica de Cannes e que foi este mês uma das cinco obras finalistas na corrida a representante francês ao Oscar de Melhor Filme Internacional de 2027. O filme tem representação portuguesa pela NOS Audiovisuais.

 

O vencedor da Competição de Documentários foi também duplamente premiado, ao conquistar o Prémio de Melhor Documentário e o Prémio do Público. O documentário espanhol Corren las Liebres de Lorena Ros é um olhar franco sobre a acumulação de marginalidades e o desabrigo da população trans ex-presidiária com cenário no centro de Barcelona.

 

Nas palavras do júri, formado pela programadora de cinema Diana Cipriano, pelo jornalista Filipe Santa-Bárbara e por Luis Rosado, da equipa editorial da RTP2, o filme conquistou "pela sua generosidade e respeito no olhar da câmara, pelo magnetismo das mulheres que retrata, em particular Noa, e a forma como deixa o seu carácter elevar-se acima de todas as vulnerabilidades”. A realizadora subiu ao palco do Cinema São Jorge para receber o prémio, patrocinado pela RTP2, pela aquisição dos direitos de exibição do filme, no valor de 3.000€.

 

Na mesma secção, o júri atribuiu ainda uma menção honrosa ao documentário vietnamita Baby Jackfruit Baby Guava, de Nông Nhật Quang. O filme, estreado no festival Visions du Réel, faz uma viagem ao passado através dos diários e fotografias de família do realizador.

 

O Prémio de Melhor Filme da Competição Queer Art, secção dedicada a obras que exploram os limites das linguagens e géneros cinematográficos, foi atribuído ao documentário mexicano Nuestro Cuerpo Es una Estrella que Se Expande dos irmãos Semillites Hernández Velasco e Tania Hernández Velasco, uma reflexão sobre a sensibilidade trans cruzada com a paisagem e com as ligações familiares.

 

O júri, constituído pelo realizador brasileiro Leonardo Mouramateus, pela curadora Marta Mestre e pelo cineasta alemão Matthias Müller, atribuiu ainda uma menção honrosa a Life Is about Losing Everything, dos também irmãos Benjamin Ramírez Pérez e Stefan Ramírez Pérez, um fascinante e colorido híbrido que funciona como adaptação do muito particular universo da poetista e escritora feminista canadiana Lynn Crosbie, apresentado em estreia mundial no festival.

 

Na Competição de Curtas-Metragens, Je veux qu’on se souvienne de nous, da escritora francesa Hélène Giannecchini, arrecadou o Prémio de Melhor Curta-metragem, e Fronteriza de Nay Mendl e Rosa Caldeira, o Prémio AltContent. Seek No Favor das norte-americanas Elle Clay e Leilah Weinraub recebeu uma menção especial do júri, e Xylella Fastidiosa, do francês Thomas Colineau, foi o favorito do público.

 

Na Competição In My Shorts, dedicada a curtas-metragens de escolas de cinema europeias, Ãsheghetam do iraniano Filmsaaz venceu o melhor filme, e Sunday Lunch de Lyndon Henley Hanrahan foi agraciado com uma menção honrosa do júri. No conjunto das duas secções, o festival apresentou 32 curtas-metragens, avaliadas pela diretora de fotografia brasileira Aline Belfort, o realizador Caio Amado Soares e a programadora Lou Loução.

 

Com uma programação fortemente marcada pelo tema das relações familiares, afetivas e sexuais, e de um futuro esperançoso, a equipa do festival realçou ao longo do evento a excelente prestação do atual cinema queer, em particular o expressivo alcance da “colheita” de novos filmes de 2026, que facilitou nove sessões com lotação esgotada, nomeadamente de The Man I Love, Teenage Sex and Death at Camp Miasma, Amarga Navidad, The Faggots & Their Friends Between Revolutions, Orlando, La conscience politique, A Paixão segundo G.H.B. e Jim Queen.

 

Na noite de encerramento, decorrida no sábado, 26 de setembro, e onde se exibiu a longa-metragem de animação Tangles, de Leah Nelson, a organização anunciou que a 30.ª edição de aniversário do Queer Lisboa foi a mais concorrida de sempre, atingindo o mais elevado número de espectadores da sua história, ultrapassando as 11.500 pessoas que acorreram às 67 sessões do festival decorridas durante 9 dias no Cinema São Jorge e na Cinemateca Portuguesa, um acréscimo de 53% face aos números de 2025, e a presença de 38 convidados nacionais e internacionais, a maioria deles cineastas. Uma seleção das curtas-metragens vencedoras será exibida no dia 1 de outubro, às 19h30, na Garagem da Vizinha, em Lisboa, numa sessão de entrada livre. A 31.ª edição decorrerá entre 17 e 25 de setembro de 2027. Entretanto, terá lugar a 12.ª edição do Queer Porto, entre 3 e 7 de novembro, no Batalha Centro de Cinema, Casa Comum e Passos Manuel. A programação será anunciada em outubro.

 

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PALMARÉS QUEER LISBOA 30

 

COMPETIÇÃO LONGAS-METRAGENS

 

MELHOR FILME
La Gradiva, Marine Atlan (França, Itália, 2026, 145’)

 

“O Prémio do Júri de Longas-Metragens vai para “La Gradiva”, da francesa Marine Atlan, uma “Viagem em Itália” contemporânea que segue um grupo de adolescentes num instante decisivo de passagem para a idade adulta. Entre ruínas, movimentos tectónicos e a vibração da natureza, as personagens questionam-se, apaixonam-se e magoam-se, circulando num território tão antigo quanto instável. A arqueologia da História, a formação das identidades e a procura de pertença convergem como movimento vital desta fulgurante primeira obra que toca a fragilidade da natureza humana.”


PRÉMIO DO PÚBLICO
La Gradiva, Marine Atlan (França, Itália, 2026, 145’)

 


COMPETIÇÃO DOCUMENTÁRIOS

 

MELHOR FILME
Corren las Liebres, Lorena Ros (Espanha, 2025, 71’)

 

“Corren Las Liebres”, pela sua generosidade e respeito no olhar da câmara, pelo magnetismo das mulheres que retrata, em particular a Noa, e a forma como deixa o seu carácter elevar-se acima de todas as vulnerabilidades. E sim: esta também é uma escolha política.”
 

MENÇÃO ESPECIAL
Baby Jackfruit Baby Guava, Nông Nhật Quang (Vietnã, Coreia do Sul, 2026, 105’)

 

“Não só os temas retratados, mas a coragem e a confiança da realização fazem de “Baby Jackfruit Baby Guava” um filme necessário. Perante a complexidade das dinâmicas familiares, a capacidade de um olhar próximo, mas objetivo, confere-lhe um equilíbrio raro.” 

 

PRÉMIO DO PÚBLICO
Corren las Liebres, Lorena Ros (Espanha, 2025, 71’)

 


COMPETIÇÃO QUEER ART

 

MELHOR FILME
Nuestro Cuerpo Es una Estrella que Se Expande, Semillites Hernández Velasco, Tania Hernández Velasco (México, 2025, 84’) 

 

“Partindo de um tema íntimo, este filme com uma forte linguagem plástica inventiva, expande-se numa poderosa reflexão sobre a sensibilidade trans: mutável e conectada a outros organismos. Nasce da cumplicidade entre dois irmãos e abre-se à família, a seres não humanos, desenhando um arco que vai da geologia ao cosmos, do sal ao glitter.”

 

MENÇÃO ESPECIAL
Life Is about Losing Everything, Benjamin Ramírez Pérez, Stefan Ramírez Pérez (Alemanha, Países Baixos, 2026, 100’)

 

“O júri deseja também homenagear com uma menção especial um filme de grande precisão e elegância estilísticas, e cuja fidelidade à sua fonte literária subjacente, nos cativaram. Através da sua forma episódica não convencional, pontuada pelas palavras da autora "real", Lynn Crosbie, surge um retrato cinematográfico distinto que conquistou também a nossa atenção.”

 


COMPETIÇÃO CURTAS-METRAGENS

 

MELHOR FILME
Je veux qu’on se souvienne de nous, Hélène Giannecchini (França, 2026, 26’)

 

“O júri quis atribuir o prémio de Melhor Curta-Metragem a um filme que entende a preservação da memória como um gesto político. A partir de um arquivo visual e sonoro construído ao longo de mais de cinquenta anos, o filme recupera as vidas de pessoas lésbicas e trans, muitas delas queer e da classe trabalhadora, que encontraram na comunidade, na militância e no encontro formas de existir num mundo que tantas vezes as empurrou para as margens. Ao revisitar o trabalho de Donna Gottschalk, o filme não se limita a documentar ou preservar esse arquivo: através de uma construção cinematográfica inventiva, faz com que essas imagens, vozes, cartas e fotografias voltem a adquirir presença. Porque lembrar quem esteve antes de nós é também contrariar o seu apagamento e reconhecer estas vidas como parte da nossa história coletiva.”
 

PRÉMIO ALTCONTENT
Fronteriza, Nay Mendl, Rosa Caldeira (Brasil, Paraguai, 2025, 21’)

 

“O júri atribui este prémio a um filme que parte da fronteira para pensar questões de identidade, amor e pertença, cruzando a dimensão geográfica com as fronteiras sociais e políticas que atravessam os corpos e condicionam as formas de existir. Interessou-nos a forma como o filme constrói esse paralelismo entre território e identidade, fazendo da margem não apenas um espaço de separação, mas também de encontro e transformação. É precisamente nesse lugar, onde as fronteiras se tornam menos rígidas, que o filme encontra a sua forma e nos mostra a possibilidade de imaginar outras formas de existir e de nos relacionarmos.”

 

MENÇÃO ESPECIAL
Seek No Favor, Elle Clay, Leilah Weinraub (EUA, 2025, 14’)

 

“Atribuímos uma menção honrosa a Seek no Favor, de Elle Clay e Leilah Weinraub, pela sua linguagem cinematográfica camp, divertida e com humor, que oferece uma reflexão interessante sobre as lutas internas da comunidade negra no hipercapitalismo estadunidense. No seio desta reflexão, desenvolve-se uma história de entreajuda, de busca por justiça e de romance, lembrando Born in Flames, de Lizzie Borden.”
 

PRÉMIO DO PÚBLICO
Xylella Fastidiosa, Thomas Colineau (França, 2025, 21’)

 


COMPETIÇÃO IN MY SHORTS – CURTAS-METRAGENS DE ESCOLAS EUROPEIAS

 

MELHOR FILME
Ãsheghetam, Filmsaaz (França, Suíça, Irão, 2026, 21’) 

 

“Quando num filme se é confrontade com uma realidade sombria, espera-se sempre ver uma luz ao fundo do túnel. Mas a realidade aqui retratada mostra uma situação actual, de guerra, em que se torna difícil continuar a ver alguma coisa. Este é apenas um prémio num festival de cinema em Portugal - mas que possa este fazer parte de uma reafirmação de resistência global. Raramente uma animação de ficção se parece tanto com um documentário. Por este feito, e pela sua linguagem visual ousada e inovadora, o júri premia Ãsheghetam, de Filmsaaz.”
 

MENÇÃO ESPECIAL
Sunday Lunch, Lyndon Henley Hanrahan (Reino Unido, 2026, 15’)

 

“Um filme que não nos deixou indiferentes e que foi, desde o primeiro momento, um consenso entre o júri. Num conjunto de filmes que nos confrontou com realidades complexas e urgentes, quisemos também distinguir uma obra que nos mostrou a possibilidade de tratar de um assunto tão frágil com a maior sutileza e humor falando sobre aquilo que, tantas vezes, é difícil dizer.”

 

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